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"Crédito podre" deve girar R$ 6,3 bilhões neste ano.

Venda de carteiras inadimplentes pode ter volume recorde neste ano com novos

participantes.

O BTG Pactual comprou, num leilão inédito feito pelo BNDES e pelo Fundo

Garantidor de Créditos (FGC), uma carteira de R$ 1,267 bilhão em créditos vencidos

do Banco Econômico, em liquidação extrajudicial desde 1996. A operação,

arrematada pelo lance mínimo de R$ 937,7 milhões, é o exemplo mais recente de um mercado que voltou a crescer neste ano e vem se sofisticando no Brasil: o de cessão de crédito, especialmente de carteiras vencidas ("créditos podres").

Os volumes ainda são pequenos no Brasil, mas o segmento vem atraindo novos

participantes. Depois de um 2020 em compasso de espera por causa da pandemia, 2021 caminha para ser recorde.

“Este está sendo o ano mais forte, vai passar R$ 35 bilhões [em valor de face de carteiras], podendo chegar a R$ 37 bilhões. Podemos atingir mais ainda em 2022.

Os players tradicionais estão acelerando e os novos entrando, e de segmentos diferentes”, diz Wagner Sanches, presidente da Recovery, empresa de recuperação de créditos do Itaú Unibanco.

“Sem dúvida é um mercado promissor e vemos mais diversidade na originação”, diz Lauro Leite, da Return. O segmento deve ganhar ainda mais tração se os bancos públicos se tornarem vendedores frequentes. O próprio BNDES prepara um novo processo de cessão de carteiras inadimplentes para 2022. “Temos acompanhado ativamente as oportunidades de mercado para créditos não performados e identificamos elevação no nível de interesse de investidores por créditos estressados”, afirmou o banco de fomento em resposta.

Esse tipo de operação permite que um credor saia de um determinado risco, que normalmente é transferido, com desconto, para uma gestora especializada em recuperação de ativos. Quanto mais antigos os créditos, mais difícil tende a ser sua recuperação.

No caso do Econômico, por exemplo, o BNDES informou que a venda antecipa um dinheiro que o banco só veria após o pagamento pela massa liquidante. Com a operação, o BTG também realiza um desejo antigo. A instituição tentava, há anos, adquirir ativos do Econômico e chegou a ensaiar até a compra do banco em liquidação. Por meio da controlada Enforce, o BTG é um dos grandes competidores no segmento de cessão.

Para o diretor-executivo do FGC, Daniel Lima, o mercado de venda de créditos está mais dinâmico. Essa foi uma das razões para fazer a licitação dos ativos do Econômico. “Como somos um ‘business’ que precisa comparecer em momentos em que o mercado possa estar mais estressado, é muito importante a manutenção de um bom nível de liquidez e segurança dos nossos investimentos”, afirma.

O FGC, associação privada voltada à proteção de investidores de instituições financeiras, não tem novas cessões previstas para este ano, mas deve voltar a avaliar esse tipo de instrumento para outras operações similares. “Temos algumas carteiras não performadas, então tem alguns processos judiciais para reaver créditos. Isso é passível de venda”, diz Lima.

O mercado de cessão de carteiras vencidas (non-performing loans, ou NPL, na sigla em inglês) é dividido em dois grandes segmentos: o crédito massificado, ou seja, pacotes com centenas, milhares de créditos em geral concedidos a pessoas físicas ou pequenas e médias empresas; e os chamados “single names”, créditos atrasados de grandes empresas. No primeiro caso, as companhias de recuperação usam algorítimos para explorar a ampla base e ver de onde é mais provável conseguir receber alguma coisa. No segundo, a negociação é individual.

Há poucos dados sobre esse mercado porque os bancos são obrigados a informar a cessão de carteiras somente para os créditos que ainda estão ativos em seu balanço. Porém, as vendas envolvem sobretudo ativos já baixados a prejuízo.

Participantes do segmento estimam que as carteiras de NPL dos bancos chegariam perto de R$ 1 trilhão. Há ainda um volume de magnitude parecida que não pertence a instituições financeiras, mas a outros tipos de empresas, como varejistas, indústrias e tradings, que muitas vezes tem enormes volumes de contas a receber.

A Enforce, do BTG, atua com créditos de pessoas jurídicas, com uma carteira de cerca de R$ 45 bilhões. Como trabalha com devedores de maior porte, muitas vezes acaba executando garantias e, assim, tem uma área específica só para lidar com ativos imobiliários. Alexandre Câmara, sócio do BTG e responsável pela área, afirma que o desafio é usar a tecnologia para dar escala a uma operação que, por envolve negociações individuais, tende a ser muito mais “artesanal”. Segundo ele, o objetivo é chegar a uma solução na qual o devedor pague o que for possível, mas não seja asfixiado. “Temos um papel importante no sistema financeiro e de crédito. Tornamos o processo de cobrança e recuperação mais eficiente e, assim, colaboramos para reduzir os spread bancários”, avalia o presidente da Enforce, Ricardo Cardoso.

Para Sanches, da Recovery, este ano está sendo “muito forte” para transações com créditos inadimplentes. Como no Brasil, o mercado para esse tipo de operação ainda está muito no começo, há grande potencial de crescimento. “É um mercado muito desenvolvido fora do Brasil, nos Estados Unidos, Europa. No Brasil ainda é muito incipiente” observa.

Uma pesquisa da Deloitte com os principais players desse mercado mostra que, após uma queda em 2020, em função da cautela gerada pela pandemia, os volumes pagos pelos compradores desse tipo de carteira devem subir para R$ 6,3 bilhões neste ano e R$ 7,2 bilhões em 2022. O valor de face, ou seja, quando esses empréstimos valiam originalmente, deve atingir R$ 33,3 bilhões em 2021 e R$ 26,5 bilhões no próximo ano. Geralmente, dada a enorme dificuldade de receber créditos que muitas vezes estão atrasados há anos e são alvo de disputadas judiciais, essas carteiras inadimplentes são vendidas por uma fração desse valor.

O mercado de recuperação de crédito está se aquecido no segundo semestre deste ano e essa trajetória deve prosseguir até 2022, segundo o sócio da consultoria Deloitte, Luís Vasco. O executivo não descarta que os volumes possam chegar a R$ 40 bilhões em valor de face em 2021, com possibilidade de se posicionar acima dessa faixa no ano que vem. Ele observa que o tamanho do mercado é muito definido pela oferta que se tem, ou seja, da decisão dos detentores dos créditos inadimplentes de fazer a cessão desses ativos para terceiros.

“Essa prática de venda de carteiras não performadas não era comum. Era restrita aos grandes bancos”, afirma Vasco, acrescentando que, hoje, o leque de vendedores é muito mais diversificado. “São ativos que estavam jogados em algum canto, mas que, através desse processo [de venda] você gera riqueza, trabalho e ajuda a economia”, diz.

Na avaliação de participantes do mercado, um dos entraves para um crescimento maior do volume de vendas de créditos inadimplentes é a presença pequena dos bancos públicos nesse segmento - que agora começa a ser quebrada pelo movimento do BNDES. As instituições financeiras estatais já foram mais atuantes. No entanto, em 2016, o Tribunal de Contas da União (TCU) proibiu a Caixa de vender carteiras inadimplentes a terceiros, após uma operação suspeita, e até hoje o banco não voltou ao mercado.

O Banco do Brasil, por sua vez, repassa a maior parte das suas carteiras a uma empresa própria de recuperação de créditos, a Ativos. No ano passado, o BB cedeu sua primeira carteira para um comprador de fora do grupo, o BTG, mas a operação teve repercussão negativa. Sindicatos, políticos e até mesmo o TCU questionaram o preço pago pelo banco. O ruído foi causado pela diferença entre o valor de face, de R$ 2,9 bilhões, e o de compra, de R$ 371 milhões - embora as aquisições com grande deságio sejam comuns nessa atividade. Francisco Clemente, diretor da KPMG, lembra que a consultoria atuou no seu primeiro projeto de venda de carteira há 14 anos, quando o mercado no Brasil ainda era extremamente incipiente. “Hoje, temos um mercado muito mais organizado, que já aumentou bastante, apesar de ainda ter muito espaço para crescer”.

Clemente aponta que o segmento é cíclico. Cresce quando a economia está começando a se recuperar, especialmente na saída de uma crise, quando as carteiras em atraso aumentaram. E diminui em uma recessão, pois as incertezas e o foco dos bancos em outras questões deixam a cessão de carteira meio de lado. De acordo com dados usados pela Recovery, o mercado brasileiro comercializa entre 3% e 4 % de todo o crédito NPL, sendo que, na Europa, chega ao patamar de 20%. Sanches diz que o número de vendedores também vem crescendo, passando de 15 em 2019 para 20 em 2020, mesmo com a pandemia, que afetou um pouco os volumes cedidos.

Lauro Leite, presidente da Return, que faz parte do grupo Santander, reforça essa visão. A empresa, por exemplo, já participou de operações com os bancos digitais Digio e Agibank. “Sem dúvida nenhuma é um mercado muito promissor, e tendo mais diversidade na originação, isso acaba gerando mais compradores”, afirma.

A Return, que o Santander montou após comprar a Ipanema, é uma das maiores compradoras do mercado brasileiro e avalia responder por quase 50% dos volumes movimentados.

Procurados, os grandes bancos preferiram se manifestar apenas através de suas empresas de recuperação de ativos. A Caixa afirmou que estuda a retomada da venda de carteiras onerosas. “A divulgação ao mercado se dará oportunamente”, afirmou, por meio de nota.


Por Álvaro Campos e Alessandra Saraiva — De São Paulo e do Rio 15/09/2021


Leia na íntegra: https://valor.globo.com/financas/noticia/2021/09/15/mercado-de-cessao-de-ativos-volta-a-crescer.ghtml

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